Fim das bets: clubes brasileiros vão perder patrocínios milionários nas camisas
O futebol brasileiro vive um dos momentos mais turbulentos de sua história fora de campo. A Medida Provisória 1.394, assinada pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva na sexta-feira (25), proibiu de uma só vez a exploração, a oferta, a intermediação e a publicidade das apostas de quota fixa — as populares bets — em todo o território nacional. Para os clubes, o baque é imediato e bilionário: 14 dos 20 times da Série A do Brasileirão têm uma casa de apostas como patrocinadora máster e terão de entrar em campo sem essas marcas nas camisas já na volta da Data Fifa, em outubro.
A decisão pegou dirigentes de surpresa e abriu uma corrida contra o relógio nos departamentos comerciais e de marketing dos clubes, que agora precisam recalcular orçamentos, produzir novos uniformes e buscar patrocinadores em um mercado que, da noite para o dia, perdeu seu maior investidor.
A medida que mudou o jogo
Publicada em edição extraordinária do Diário Oficial da União, a MP 1.394 proíbe, no território nacional, a exploração, a oferta, a intermediação e a publicidade de loterias de apostas de quota fixa, em meio físico ou virtual — inclusive quando realizadas por empresas sediadas no exterior que ofereçam o serviço a pessoas localizadas no Brasil. A proibição abrange apostas sobre eventos esportivos reais e sobre jogos virtuais online, mas não se aplica às demais modalidades lotéricas autorizadas por lei.
Por se tratar de uma medida provisória, o texto tem força de lei desde a publicação, mas ainda precisa ser analisado pelo Congresso Nacional em até 120 dias para continuar valendo de forma permanente. Deputados e senadores poderão aprovar o texto como está, modificá-lo durante a tramitação ou deixar que ele perca a validade.
Paralelamente, avança no Senado um projeto que veda definitivamente toda e qualquer publicidade e patrocínio relacionados às bets. Aprovado na Comissão de Ciência e Tecnologia, o texto proíbe anúncios em rádio, TV, internet e redes sociais, além de vetar logomarcas de casas de apostas em uniformes, placas de estádio e naming rights de competições. O projeto também cria o crime de divulgação de operador de apostas não autorizado, com pena de um a cinco anos de reclusão — punição que pode ser aumentada quando a divulgação for feita por influenciador digital, atleta ou pessoa de grande notoriedade.
O cronograma do fim das bets
A medida provisória estabeleceu um calendário apertado para o encerramento das atividades. Os novos depósitos nas plataformas ficaram proibidos imediatamente após a publicação. Os apostadores têm até as 23h59 do dia 5 de outubro para sacar voluntariamente os saldos disponíveis nas contas.
A partir de 6 de outubro, os sites e aplicativos de apostas deverão sair do ar. Entre os dias 7 e 8 de outubro, as empresas informarão aos bancos os saldos vinculados aos CPFs dos clientes. A devolução dos valores pelas instituições financeiras acontecerá entre 9 e 14 de outubro, e a Caixa Econômica Federal poderá intermediar a devolução em casos de impedimento.
As apostas ainda sem resultado definido serão canceladas se não forem concluídas até o encerramento do período de transição, com devolução integral dos valores aos apostadores. Já os prêmios de apostas concluídas dentro do prazo previsto deverão ser pagos normalmente.
Para o futebol, o prazo é o mesmo: clubes, federações e competições têm até as 23h59 de 5 de outubro para retirar de suas propriedades todas as ações e peças publicitárias ligadas às casas de apostas. Na prática, 14 equipes da Série A voltarão da Data Fifa sem marcas de bets nos uniformes.
O impacto nos clubes: números que assustam
Os valores envolvidos explicam o tamanho da apreensão nos bastidores. O mercado de apostas movimentou cerca de R$ 1,1 bilhão em patrocínios no futebol brasileiro em 2026, praticamente o mesmo patamar da temporada anterior. Em 2024, 18 dos 20 times da primeira divisão tinham marcas do segmento estampadas nos uniformes, em um mercado que movimentou aproximadamente R$ 523 milhões naquele ano.
Entre os maiores contratos da Série A, o Flamengo lidera com a Betano, em acordo estimado em R$ 220 milhões anuais. O Corinthians recebe cerca de R$ 150 milhões da Esportes da Sorte, enquanto Palmeiras e São Paulo têm parcerias na casa dos R$ 100 milhões e R$ 90 milhões, respectivamente, com Sportingbet e Superbet. Fluminense, Botafogo, Cruzeiro, Vasco, Grêmio, Santos e outros completam a lista de clubes com patrocínios máster de bets, em valores que vão de R$ 10 milhões a R$ 60 milhões por temporada.
O presidente do Fluminense, Mattheus Montenegro, afirmou em entrevista que o impacto da proibição no clube ultrapassa R$ 100 milhões. A Superbet, patrocinadora máster do Tricolor até o fim de 2029 em contrato de R$ 58 milhões anuais, já comunicou ao clube a possibilidade de encerrar o acordo. Segundo o dirigente, o prejuízo vai além do patrocínio principal: envolve placas de campo e uniformes, que são produzidos com seis meses de antecedência.
O presidente do Flamengo, Luiz Eduardo Baptista, o Bap, foi ainda mais enfático. Em entrevista, ele estimou que o futebol brasileiro pode perder cerca de R$ 2,5 bilhões em receitas no próximo ano com a proibição em vigor. Só para o Rubro-Negro, as perdas imediatas de receita para 2027 são calculadas entre R$ 400 milhões e R$ 430 milhões, atingindo não apenas o futebol, mas também os esportes olímpicos do clube.
Um levantamento mostra que nenhum contrato com bets representa mais de 13% do orçamento de um clube da Série A, e que os patrocínios do setor correspondem, em média, a cerca de 7% das receitas dos times. Ainda assim, a saída simultânea de 14 patrocinadores máster cria um problema inédito: com quase todos os clubes disponíveis ao mesmo tempo no mercado, o valor dos espaços comerciais nas camisas tende a cair, na avaliação dos dirigentes.
Camisas sem patrocínio: a corrida contra o relógio
Além dos uniformes, a proibição alcança os naming rights de competições e estádios. O Brasileirão e a Copa do Brasil, que carregam marcas de bets em seus nomes oficiais, precisarão passar por alterações. Estádios com nomes vinculados a casas de apostas, como o do Náutico, negociado com a Esportes da Sorte, também entram na conta.
A produção de novos uniformes é outro gargalo. As camisas dos clubes são confeccionadas com cerca de seis meses de antecedência, o que significa que os lotes já produzidos com as marcas das bets não poderão ser utilizados após 5 de outubro. Os departamentos de marketing trabalham agora para desenvolver novas peças em tempo recorde.
O Ministério da Fazenda informou que já havia solicitado à Anatel o bloqueio de mais de 57 mil endereços eletrônicos relacionados a apostas ilegais apenas em 2026, em uma ofensiva contra o mercado clandestino que deve se intensificar com a proibição total.
O que os torcedores precisam saber
Para quem tinha conta em sites de apostas, a orientação é não deixar para a última hora: o prazo para saque voluntário do saldo termina às 23h59 do dia 5 de outubro. Após essa data, os valores serão devolvidos por meio das instituições financeiras, em processo que pode levar até o dia 14 de outubro.
Novos depósitos já estão proibidos, e as plataformas deverão interromper completamente o acesso às apostas a partir de 6 de outubro. A publicidade de bets — em TV, rádio, internet, redes sociais e estádios — também passa a ser vedada, o que deve mudar visivelmente a paisagem do futebol brasileiro nas próximas semanas.
Resta agora acompanhar a tramitação da medida provisória no Congresso Nacional, que terá até 120 dias para decidir se o fim das bets se torna definitivo ou se o texto sofrerá alterações. Enquanto isso, os clubes seguem fazendo contas — e o torcedor, acostumado a ver as marcas estampadas nas camisas, vai precisar se acostumar com um futebol de visual novo.
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